COMO NASCEM OS CIENTISTAS *

(*)Retirado de: REIS, José. Educação é Investimento. São Paulo, IBRASA, 1968.

O cientista não é como o coelho de Páscoa, que pelo menos imaginariamente nasce de um ovo de chocolate, ao contrário dos outros coelhinhos. O cientista nasce exatamente como todos os outros homens, trazendo consigo as qualidades combinadas de seus pais e antepassados, e combinadas e recombinadas de tal modo que, embora afirmemos que todos os homens são iguais em seus direitos, na verdade não existe nenhum homem que seja perfeitamente igual a qualquer outro. Uma vez nascido o cientista, ou melhor, a criança que um dia se tornará cientista, sobre ela agem as muitas influências de meio, favorável umas, outras hostis. O comportamento do que vai ser um cientista, como o de qualquer outra pessoa, é produto da ação conjunta daqueles fatores que vêm dos pais - a herança - e daqueles que se acham no meio ambiente. E quando dizemos meio ambiente, queremos dizer tudo que nos cerca e entra em contato conosco, sem excluir portanto as outras pessoas. Entre estas, naturalmente, os professores.

Mas por que comecei esta história sobre como nascem os cientistas, afirmando que eles o fazem como todos os outros homens? Para deixar claro desde já que o cientista é um homem como qualquer outro, não sendo certo imaginar que a ele necessariamente corresponda algum comportamento anormal ou estranho, como o que caracteriza os "cientistas loucos" das histórias de quadrinhos e de tantas fitas de cinema. Há cientistas meio aloucados, sim, mas em qualquer outro ramo de atividades encontramos gente assim, de temperamento descontrolado, agressiva. Se levarmos mais longe esse pensamento, poderemos afirmar tranqüilamente que aquelas pessoas que lotam os sanatórios de doença mentais não são em geral cientistas. Poderá haver entre elas cientistas ou projetos de cientistas que a doença mental colheu, como pode colher qualquer outro ser humano. E também haverá algumas com mania de ser cientistas, falando como se fossem sábios, mas ainda aí haveremos de convir em que, do lado de cá das tristes paredes dos hospícios, não faltam criaturas a fingir ciência que não têm e a perturbar com ela a vida de seus semelhantes, chegando mesmo a desencaminhar os governantes, que tantas vezes se deixam levar pelos "bons de bico", ou mirabolantes homens da meia ou da falsa ciência.

Alguns psicólogos têm analisado a vida dos cientistas para ver se descobrem algum traço, ou alguns caracteres que permitam dizer com certeza ou boa probabilidade se uma pessoa tem ou não capacidade para a ciência. Esses estudos infelizmente não nos ensinam muita coisa. Pois existem cientistas de todo jeito, taciturnos ou alegres, pé de boi ou flanadores, atentos às necessidades de seu vizinho e de sua família, ou indiferentes. Ainda aí, na ciência como em tudo o mais.

Conheço cientista pontuais, quase burocráticos no rigor que se impõem na observância de horários. Dizem que Fleming, o descobridor da penicilina, era tão regular em seus hábitos que se tornava possível acertar o relógio pela hora em que entrava e saía do laboratório. Mas também existem cientistas de vida menos organizada, distraídos. Um deles, colega meu dos mais ilustres, esqueceu durante muitos dias (não sei se meses) a bagagem que trouxe do Rio, no armazém da Central do Brasil. E essa bagagem, era os móveis da casa! A família teve de arranjar-se com caixotes e mesas improvisadas até que ele fosse à Central, pagasse a taxa devida pelo armazenamento e recebesse os trastes. O mesmo colega (foi ele quem me contou a história, achando-a muito engraçada) ao voltar para casa, entrou na residência do vizinho (era um correr de casas geminadas), subiu a escada que dava para o andar de cima, foi ao banheiro e só quando descia a escada percebeu que estava em domicílio alheio, felizmente de amigo. Ao relatar-me a situação, ajuntou um pormenor: começara a desconfiar de que não estava em sua casa quando, ao apertar uma válvula, esta funcionou, surgindo água no lugar adequado. Dizem que Newton era distraído, a ponto de uma vez, tendo de cozinhar um ovo na água, colocar o relógio dentro da água e ficar com o ovo na mão, para contar os minutos. Uma caricatura cujo autor não me vem à mente, representa um sábio distraído, com a mão no queixo e o ar distante, diante de uma certa porta que costuma ser extremamente reservada, a perguntar-se: "Que é que vim fazer aqui?"

Essas coisas não acontecem apenas a cientista, embora seja natural que a eles ocorram com alguma freqüência porque andam com a cabeça cheia de raciocínios, ou sonhos (se quiserem), e por isso facilmente se perdem. Qualquer outra pessoa, porém, que esteja com a cabeça atulhada de pensamentos ou meditações, poderá comportar-se de maneira semelhante.

Se analisarmos a infância e a adolescência dos cientistas, também encontraremos muita variação. Uns desde muito novos manifestam lampejos de gênio e aferram-se a um assunto. Por causa disso não prestam atenção a outra matérias, na escola, e são tidos às vezes por travessos ou mesmo inaproveitáveis. Alguns desses meninos tiveram grandes dissabores quanto enfrentaram as bancas de exames, pois os mestres não os compreendiam. Evaristo Galois, o grande matemático, foi desse tipo. Há cientistas que, na infância, entram na categoria dos meninos prodígios, Nela se incluiu o matemático Norbet Wierner, da cibernética, que conta sua própria vida num livro chamado "Ex-Prodigy". Mas nem todo prodígio deu prodigiosas realizações no futuro. Ainda aqui o mundo da ciência não apresenta muita novidade.

Em contraste, foi aparentemente lerdo o desenvolvimento intelectual de não poucos cientistas. Entre eles podemos citar Copérnico e Faraday, dois dos grandes revolucionários da ciência.

A história de Einstein e Darwin é ilustrativa. Aos olhos de seus pais e mestres Darwin foi mau estudante; abandonou os estudos assim que soube que por herança lhe estava assegurada uma renda que dava para viver folgadamente. Se muito estudo regular é que embarcou no navio "Beagle", como naturalista, e fez longa viagem pelo mundo. Observou muito, tomou notas, guardou exemplares dos seres observados. E depois de muita meditação nas horas boas, isto é, quando não estava com dor de cabeça, nasceu a teoria da evolução.

Einstein também não se distinguiu como estudante. Melhor que Darwin, sem dúvida, mas não conseguiu passar no exame para a Politécnica de Zurique, na primeira vez. Logrou-o na segunda, mas nunca impressionou os mestres, que até lhe recomendaram mudar de profissão - diziam que era preguiçoso - acenando-lhe com a biologia ou teologia. Formou-se, mas nunca pode conquistar um título que, por sua categoria, lhe permitisse ingressar na carreira de pesquisador universitário.

Pasteur também não se distinguiu por nenhuma qualidade especial quando menino, porém Lineu, o grande naturalista, desde muito cedo fugia da escola para catar plantas.

Se investigarmos os cientistas do ponto de vista de sua origem social, é difícil afirmar que de determinadas camadas provenham necessariamente os melhores, ou mais numerosos cientistas. Algumas investigações mais antigas pareciam indicar que os cientistas vêm geralmente de pais que se encontram entre os representantes das profissões liberais, porém ainda recentemente se revelou que uma grande maioria dos mais eminentes físicos norte-americanos provém de classes rurais, algumas vezes de imigrantes de modesta condição.
O resultado não é diferente quando consideramos os cientistas segundo as raças. Se são muito mais numerosos em brancos e depois em amarelos, é porque nesses grupos se encontram melhores condições sociais para a ascensão. Como pode ser cientista um pele-vermelha ou um negro criado em condições inferiores?

A capacidade intelectual é muito complexa. Nela entram vários fatores, alguns dos quais ainda mal conhecidos. Mesmo aquilo que se chama de inteligência e se mede sob forma de quociente intelectual, está longe de ser homogêneo. Duas pessoas com o mesmo QI podem ter inteligências diferentes do ponto de vista qualitativo, isto é, inteligências que se adaptam melhor ao aproveitamento de determinadas condições do meio. Na inteligência como nas outras capacidades intelectuais entram sem dúvida fatores hereditários, porém esses fatores são muito gerais e numerosos, e de sua combinação resultam sem dúvida diferenças de comportamento intelectual que tornam uma pessoa melhor para certos trabalhos e outra para outros, embora não haja nenhuma especificidade muito rígida. Quer dizer que ninguém nasce matemático, ou que nem todo matemático tem exatamente o mesmo tipo de inteligência.

Não é então possível distinguir as tendências ou potencialidades das pessoas? É, até certo ponto. Em relação à inteligência, sabemos que aquilo que se chama de "burrice" é incompatível com ela, mas nem por isso o cientista é necessariamente super dotado em inteligência. Há cientistas de vários graus de inteligência. Além disso, capacidade intelectual não é só a inteligência que se mede como quociente intelectual. Existe, por exemplo, uma qualidade conhecida como criatividade, que o quociente intelectual não mede, mas que pode ser até certo ponto avaliada por outros meios. A criatividade exprime o poder que a pessoa tem de imaginar soluções novas, de descobrir. Ela pode ser muito alta mesmo quando a inteligência não é das mais altas.

Ora, a criança é sempre uma criança difícil. E é difícil porque, segundo Paul Torrance, que tanto tem estudado esse assunto, ela é diferente do comum das crianças, está sempre a fazer perguntas a respeito das coisas que a intrigam, procura realizar tarefas difíceis e até perigosas, absorve-se em seus pensamentos, é sincera (e as crianças costumam ser condicionadas desde o lar e depois na escola e até na igreja, salienta aquele especialista, a ser um pouco menos sincera), é acanhada e encabulada, pode parecer rude com os outros, e muita coisa mais. Uma série de dificuldades, como se vê, que os mestres podem aproveitar para melhorar, mas que também podem servir de ponto de partida. para o progresso inverso.

Deve-se ainda lembrar que a criatividade que aí se referiu não significa necessariamente a criatividade científica, esta mesma tão cheia de variações.

Daí se conclui que o importante é observar bem os meninos, desde cedo. Uns aprendem melhor quando sobre eles pesa a autoridade, que passa a lição e exige respostas. Outros aprendem melhor descobrindo por si mesmo o que lhes seria ensinado; estes últimos costumam trabalhar melhor quando o seu interesse próprio é despertado para algum problema.

Existem vários tipos de testes que ajudam a perceber a tendências, ou o tipo, da criança ou do jovem, mas tudo isso entendido sempre em termos. Para compreender o porque desta nossa cautela, basta recordar que os cientistas não se revelam todos precocemente. E nem a ciência exige de todos os mesmo total de qualidades.

Todos eles, uma vez encaminhados, podem produzir grandes coisas na ciência. Naturalmente escolherão especialidades e tipos de problemas diferentes, mas poderão chegar a grandes soluções. Não devemos pensar que a ciência é feita só pelos gênios. Há uma porção de homens médicos, porém trabalhadores, que chegam às vezes mais longe que os gênios, porque invenção é, como já se disse, 90 por cento de transpiração e dez por cento de inspiração.

Lembre-se uma vez mais que nem sempre o interesse científico aparece cedo. Muitos só se decidem pela carreira cientifica depois de terem feito um curso básico completo. Outros "vibram" logo de início.

Seja lá como for, não pode haver ciência sem um conhecimento básico, uma aprendizagem que terá de ser maior ou menor conforme o tipo de inteligência ou capacidade intelectual da pessoa. Cada vez mais difícil descobrir coisas novas, porque vamos penetrando maiores profundidades. A experiência relativamente simples de outrora não mais nos satisfaz. Queremos muito grande rigor. Mas assim mesmo, é bom lembrar que a penicilina nasceu de experiências parecidas com as do começo da microbiologia. E a reserpina lembra muito a história da digitalina.

Meu propósito era falar sobre como nascem os cientistas. Mas o melhor é falar de outra maneira: como se fazem os cientistas. Eles se fazem pelo aproveitamento inteligente dos jovens que manifestam propensão para a ciência, que no fundo é a arte de fazer perguntas à natureza. Uns gostam de perder-se em abstrações, reformulando idéias e conceitos. Outros recebem um desafio direto da natureza, sob forma de um problema que surge diante seus olhos. Outros ainda manifestam muita curiosidade e por isso enxergam dúvidas onde o comum vê coisas iguais às outras.

Desde que o mundo é mundo, quantos milhões de homens se sentaram à sombra de uma árvore em dia de sol? Muitos, sem dúvida. Mas quantos repararam em que a sombra é rendilhada de luz e que esse rendilhado é feito de círculos ou quase círculos? Alguns poucos homens. Aquele que se fixou nesse pormenor, estava vendo o que outros olhos não enxergavam. E quando procurou explicar por que a luz aparecia em manchas arredondadas, estava realizando uma operação intelectual de descoberta e de criatividade, que pouquíssimos se lembram de fazer. Quem adotou estas últimas atitudes era certamente um espírito animado do interesse científico, ainda que sem conhecimento básico científico e mesmo que chegasse a conclusões inteiramente erradas.

A criança é curiosa, o adulto nem sempre é. Isto quer dizer que em algum momento de sua vida ele perdeu a curiosidade. Quando se trata da curiosidade muito grande, que leva a criança e depois o menino a investigar por si mesmo a razão de ser daquilo que ele vê, cuidado! Aí pode estar o embrião de um cientista, e o mau ensino pode abafá-lo, destruí-lo. Quando se trata de um menino que não aceita a afirmação do livro ou do mestre, mas levanta dúvidas e faz hipóteses suas, cuidado! Aí pode estar um cientista em potencial. Quando o menino se dedica desde cedo a colecionar, não por simples "febre" imigratória, mas com empenho real, aí pode estar o germe de um naturalista. E assim por diante.

A responsabilidade dos mestres nesse trabalho é muito grande porque o sistema de ensino pode levar o professor a atrapalhar o aluno e a destruir nele o interesse pela ciência. Tudo o que for possível fazer para que as qualidades interiores dos jovens se patenteiem, deve ser feito. As feiras de ciência, favorecendo, como os clubes de ciência, o aprendizado pela descoberta, são extremamente favoráveis à formação de cientistas.
Podemos afirmar sem medo de errar que o cientista não nasce feito. Ele se faz depois de nascido. Ninguém é cientista nato porque seus pais são brancos, e não pretos, de olhos azuis e não castanhos, ou porque esses pais são cientistas eles mesmos. Lembremo-nos de Pasteur, de Faraday, de Dalton, tudo gente nascida humildemente e crescida na humildade. E lembremo-nos igualmente do jovem e pobre PerKinn, que soube virar a seu favor um erro de experiência e fazer de uma reação que não "dera certo" o ponto de partida para a descoberta dos corantes de anilina.

É claro que o ambiente em que a criança vive tem importância. Se ela cresce em uma casa onde freqüentemente se discutem problemas, se trocam idéias e se adotam atitudes críticas, já leva uma grande ajuda. Mas nem por isso o gênio deixa de revelar-se mesmo quando sobre ela pesa a ignorância dos pais. Quando cientistas tiveram de abrir seu caminho em oposição aos pais, que lhes preparavam carreiras diferentes!

Estas considerações, por perfunctórias que sejam, bastam para salientar um fato importante: o potencial científico, existente normalmente na população de um país, é muito grande. Muitos jovens poderiam ser encaminhados para a ciência e deixam de ser por incompreensão dos pais e até mesmo dos mestres. E não há país que consiga progresso sem uma boa base de ciência, sobre a qual se implanta a técnica.

A responsabilidade dos pais é muito grande, nesse terreno. Porém maior ainda é a dos professores e a dos homens cultos em geral. A educação tem de ser um mecanismo sempre atento às manifestações vocacionais, para bem encaminhar os jovens, tendo naturalmente de adotar um conjunto de conhecimentos básicos como interesse de permitir que o poder criador de cada um se manifeste livremente.

Nas mãos do mestre ou do homem esclarecido, interessado no potencial humano, se encontra, por assim dizer, a chave da libertação do maior potencial de nosso país, como de qualquer outro: a inteligência de sua gente e seu aproveitamento adequado. São muitas as vidas de cientistas célebres em que aparece um mestre ou amigo como varinha de condão para orientar e "desencantar" um gênio que se encontrava perdido ou mesmo perseguido. Gosto de recordar um médico que se interessou por Lineu, o menino travesso que fugia da escola para catar plantas. Apresentado como aluno rebelde pela maioria dos mestres, o que causava tristeza aos pais, encontrou naquele mesmo médico a compreensão e o apoio que lhe permitiam seguir a carreira botânica e ser um dos nomes de maior brilho em todos os tempos, nas ciências naturais.

Se os cientistas nascem como todas as pessoas, não levando na testa nenhuma marca visível, cabe-nos descobrir entre os alunos, nas várias idades, aqueles que prometem realizar-se na ciência. O ensino é um meio de realização e não de aprisionamento ou abafamento das capacidades humanas.

Não é possível encerrar um assunto desse, em que tantas vezes se é obrigado a falar de alunos travessos, ou irrequietos, que eram na verdade embriões de grandes cientistas, sem uma palavra de cautela. É preciso lembrar que nem todas as crianças ou os adolescentes difíceis devem essa peculiaridade a algum traço de genialidade ou de espírito criador, que os mestres não percebam. Há uma porção de outras causas, às vezes patológicas. Por isso o professor tem de ter uma sólida formação psicológica e em cada escola se torna cada vez mais importante o papel da orientação psicológica.

E bastará o conhecimento da matéria e o conhecimento psicológico aprofundado? Acho que a essas qualidades é preciso ajuntar o amor pelo magistério – ninguém educa sem amor - e especialmente nestes trópicos menos desenvolvidos, onde tanto se desperdiça em matéria-prima humana, um grande amor, um imenso amor pela pátria.

 

José Reis